• Bruno Rocha

Sobre a Justiça em Alberto Caeiro

Atualizado: Abr 12


We come to philosophy originally as people who want to think about things, and philosophy is just one way to do that; it need not exclude the modes of essayists, poets, novelists, or makers of the symbolic structures, modes aiming at truth in different ways and at things in addition to truth.¹



A Ceifa, por Silva Porto (1884)

Há um poema em que Caeiro diz Haver injustiça é como haver morte. A comparação entre injustiça e morte coloca os dois fenômenos na mesma categoria; para o poeta, ambos são fatos. Existem como são e não se transformam pela ação humana, como a estrada antes e depois da diligência:


Passou a diligência pela estrada, e foi-se; E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia. Assim é a acção humana pelo mundo fora. Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos; E o sol é sempre pontual todos os dias.


A indolência de Caeiro não é um fato; não está dada. Na verdade, ela é uma postura que realiza uma concepção de vida boa: “Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande”, ele quer ver as coisas que simplesmente existem sem pensar nelas; não conhecer as coisas, mas vê-las sempre pela primeira vez; “Ver como quem olha / Pensar como quem anda”. Trata-se de um ideal a ser realizado pela ação até se tornar hábito, para o que Caeiro precisa, paradoxalmente, vencer a apatia e lutar contra o fato de ser alguém em busca de sentido:


A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão. Não significa nada. Então porque digo eu das cousas: são belas? Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver, Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens Perante as cousas, Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!


Trocando beleza por justiça nesse trecho, temos uma pista do problema que é colocar justiça e morte na mesma categoria: a relação entre justiça e uma situação concreta é fruto de um juízo sintético, e não analítico.


A justiça é o nome de qualquer cousa que não existe Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão. Não significa nada. Então porque digo eu das cousas: são justas?


A justiça, portanto, é algo possível porque há alguém que se indigna com as coisas como são e lhes atribui um significado correspondente à reação que elas causam a esse alguém. Nesse sentido, fatos não são justos ou injustos; eles apenas são. Caeiro acerta ao perceber isso, porém se equivoca nas suas conclusões normativas que chegam a parecer um elogio à indiferença:


Haver injustiça é como haver morte. Eu nunca daria um passo para alterar Aquilo a que chamam a injustiça do mundo. Mil passos que desse para isso Eram só mil passos. Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda, E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho. Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais. Para qual fui injusto — eu, que as vou comer a ambas?


Creio que o elogio à indiferença é apenas aparente. Na verdade, o esforço de Caeiro para ver as coisas que simplesmente existem sem pensar nelas me parece uma estratégia defensiva. Ele não aguenta tanto compreender e sentir o mundo; ao mesmo tempo, não consegue se desfazer completamente dele. Daí o vislumbre de tentar existir apenas; viver sem pensar no viver…


Nunca busquei viver a minha vida. A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse. Só quis ver como se não tivesse alma. Só quis ver como se fosse apenas olhos.


… e negar a busca por qualquer sentido:


O único sentido íntimo das cousas É elas não terem sentido íntimo nenhum


Voltemos à analogia entre morte e justiça. A aceitação da morte por Caeiro pode ser fundamentada na compreensão de que ela é consequência inevitável da vida — “alguém está morrendo” seria equivalente a “alguém está vivendo”, numa perspectiva analítica, porque quem vive necessariamente morre. Por outro lado, sendo sintético o juízo que liga o predicado justiça a situações concretas, a indiferença de Caeiro é baseada em conclusões que não foram simplesmente extraídas daquilo a que chamam “injustiça do mundo”.


Caeiro parece querer acreditar que não se pode mudar o mundo e por essa razão o que nos resta é aceitá-lo como ele é: “Mil passos que desse para isso / Eram só mil passos”. Ao poeta escapa — ou ele a evita, intencionalmente, na negação da busca por sentido — a justiça como ideal, como utopia que nos faz agir, como um sentido a que queremos conformar o mundo em que vivemos e que nos organiza como sociedade. Aqui eu me lembro de Rawls:


"A distribuição natural [de talentos] não é justa ou injusta; nem é injusto que pessoas nasçam em determinadas posições na sociedade. Essas situações são apenas fatos naturais. É a maneira como as instituições sociais lidam com esses fatos que é justa ou injusta."²


Talvez a justiça exista no que se diz. E só se diz algo quando há interlocutor. A justiça só se concretiza na expectativa da reunião com o outro com quem é possível compartilhar e disputar o sentido da própria justiça. O funcionamento das instituições sociais pressupõe essa comunicação da qual Caeiro, paradoxalmente, se nega a participar participando: o poeta que prega o vazio de sentido da justiça recorrendo ao material de seu trabalho, ao seu rebanho, já participa da construção do próprio sentido.


O rebanho de Caeiro são as palavras. Escrever é colocá-las em um lugar seguro para que elas não se percam, assim como o pastor faz com as reses sob seus cuidados:


Quando me sento a escrever versos Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos, Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, Sinto um cajado nas mãos E vejo um recorte de mim No cimo dum outeiro, Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho, E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz E quer fingir que compreende.


Escrevo inspirado nos modos do pastor que cuida do seu rebanho. Preciso desse cuidado da palavra que me permite vê-las e sorrir vagamente. Nem sempre compreender o que se diz, mas estar contente com o dizer.


Por isso a justiça tem sentido e é possível: ela pode ser dita. Para lhe negar sentido e possibilidade, Caeiro precisou dizer sobre ela e houve quem o ouvisse e tivesse vontade de dizer mais.


1 NOZICK, R. The Examined Life: Philosophical Meditations. New York: Touchstone, 1989, p. 18–19.

2 RAWLS, J. A Theory of Justice. Cambridge: Harvard University Press, 1971, p. 102.



Bruno Rocha é Mestre em Teoria do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Graduado em Direito pela mesma Universidade. Professor de cursos de graduação e pós-graduação em Direito. Trabalha com metodologias de ensino presencial e EaD, com foco em abordagens participativas. Pesquisador colaborador do CePPI (DCP-UFMG). Advogado. Tem experiência nas áreas de Filosofia do Direito, Hermenêutica Jurídica, História do Direito, Sociologia do Direito, Teoria do Direito e Teoria da Constituição. Twitter: @brunoanuncia

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