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RECONHECIMENTO E REPRESENTATIVIDADE: UMA VOLTA PELO MULTICULTURALISMO DE CHARLES TAYLOR


Operários, por Tarsila do Amaral (1933).


O compartilhamento do espaço comum por grupos culturais distintos e a destinação dos recursos públicos são assuntos costumeiramente objeto de incessantes debates. Estas questões recebem maior relevância nos modelos democráticos de representatividade, em que há luta por participação dos cidadãos na construção das decisões estatais, a fim de lhes garantir a manifestação de suas preferências e se preocupando com a sobrevivência de culturas e modos de viver.


A abordagem do canadense Charles Taylor, em sua obra “A Política do Reconhecimento”, é voltada justamente para esta exigência que se identifica na política contemporânea, em favor de grupos secularmente subjugados como “minoritários”. Nesta obra, o filósofo desenvolve a sua tese do multiculturalismo, que, nada mais é, do que uma forma política de se pensar como diferentes culturas podem coexistir dentro de um determinado espaço geográfico.


A tese do multiculturalismo parte do princípio de que a nossa identidade é formada, ao menos em parte, pela existência ou não de reconhecimento das pessoas que nos circundam. A inexistência de reconhecimento ou, até mesmo, a sua distorção, segundo o filósofo canadense, pode realmente prejudicar os indivíduos, na medida em que as pessoas que os rodeiam estariam refletindo uma linguagem limitativa, de inferioridade ou desprezo sobre eles. Para Taylor, isto poderia ser uma verdadeira forma de agressão, que acabaria reduzindo a pessoa a uma maneira falsa de ser, distorcida, e, de modo geral, restritiva.


Sob esta perspectiva, é possível perceber uma relação entre o reconhecimento e a construção da identidade do indivíduo. Em “A Política do Reconhecimento”, Taylor ilustra esta relação através do exemplo das mulheres nas sociedades patriarcais, em que eram induzidas a adotar uma opinião depreciativas delas próprias e, ainda quando determinados obstáculos reais às suas prosperidades desapareciam, se viam incapazes de aproveitarem as novas oportunidades e limitadas ao efetivo exercício da liberdade.

Esta situação, no entanto, não é exclusiva ao fenômeno das mulheres em sociedades patriarcais, possuindo reflexos semelhantes em todos os indivíduos e grupos de cidadãos, nas mais diversas culturas, que são subjugados a partir de uma construção histórica de opressão em desfavor do seu estilo de vida, de sua etnia e orientação sexual, por exemplo. Com os negros a situação não é distinta, uma vez que, mesmo após o fim da escravidão em certos países, a projeção da autodepreciarão torna-se um dos instrumentos mais poderosos de sua própria opressão. A partir destas considerações, Taylor afirma que o reconhecimento incorreto e a falta de representatividade não implicam somente uma falta de respeito, mas também marcas em suas vítimas de forma cruel, subjugando-as através de um sentimento de incapacidade e de ódio contra elas mesmas.


Daí a relevância da política de reconhecimento e da importância da representatividade como formas de se assegurar a sobrevivência de culturas e modos de viver. Como esta singularidade de cada grupo de indivíduos vem sendo disfarçadamente ignorada ao assimilá-la à identidade da maioria, conforme denúncia Charles Taylor, o desafio da contemporaneidade é preservar a autenticidade de grupos culturais distintos no mesmo espaço público, reconhecendo seus valores e garantindo a efetiva participação deles nas decisões estatais.

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