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Quem vigia os vigilantes?

Não é de hoje que filmes e séries envolvendo super heróis vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado. A fórmula mágica da paz associando chutes, socos e poderes recheados de efeitos especiais com a prisão ou morte do vilão é algo extremamente lucrativo, você goste ou não. Exemplo disto é bilionária bilheteria alcançada pela Marvel Studios, com “Vingadores: Ultimato”. Depois de uma jornada de quase onze anos emplacando sucessivos filmes, nos apresentando diversos super heróis e tantos outros vilões, alimentando os fãs com easter eggs e participações especiais, o desfecho proposto em Vingadores parece ter agradado muitos, a ponto de ter se tornado o filme mais assistido no mundo inteiro.

Assumindo uma outra perspectiva e nos apresentando super heróis em alguma medida desconstruídos, quiçá, humanizados, a badalada série da Amazon Prime, The Boys, nos desloca para outra dimensão no universo da fantasia. Na série há cobiça, mortes, palavrões, falsidade, violência sem pretexto e um show de preconceitos que pode nos fazer até lembrar de um jantar de família em pleno natal. Tudo isto praticado, não raramente, justamente por aqueles que se apresentam no dever de proteger a sociedade do mal maior, os ditos super heróis.

Esta abordagem um tanto diferente, porém, não é exatamente uma novidade e já foi apresentada por outras séries, filmes, graphic novels e afins. Escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons, publicada originalmente em doze edições mensais pela editora estadunidense DC Comics, entre 1986 e 1987, Watchmen é uma das mais referenciadas história em quadrinhos neste quesito. Se engana quem lê acreditando ser apenas mais uma história de aventura e crime, as incursões filosóficas, éticas, morais e jurídicas não estão presentes a título secundário, são a questão principal, o problema da trama, da trama humana.

Com personagens bem construídos, nos demonstrando desde a indiferença do super herói que poderia impedir uma ameaça nuclear passível de dizimar milhares de vidas, até mesmo a crueldade e covardia com que certo herói mascarado age para dissipar protestos das pessoas comuns, Watchmen nos brinda com um show de realidade em meio à fantasia.

Uma das frases mais marcantes da obra de Alan Moore e Dave Gibbons é a indagação de que faz, inspirada no poeta romano Juvenal, Who watches the watchmen?”. Em tradução ao português, “Quem vigia os vigilantes?”.

Num contexto de violência em que os ditos heróis e defensores da lei agem como a instância moral da sociedade, mas, curiosamente, são eles parte do problema, senão o próprio problema, o que há a se fazer? E quando a instância maior de controle é a própria parte opressora? E quando quem me prende deveria ser preso? E quando as imposições do dito cidadão de bem é o próprio mal? Who watches the watchmen?


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