• Umberto Abreu Noce

De que lado, Aldo?

Republico abaixo texto inicialmente divulgado no site justificando.com.br, no final de 2018. Algumas coisas estarão datadas, como verão, mas em um momento em que o debate sobre as subjetividades relacionadas à cor da pele, gênero e orientação sexual se fazem tão presente, perceberão que mesmo o datado é atual.




De que lado, Aldo?


Aldo Rebelo, outrora comunista, posteriormente socialista, e atualmente correligionário do Paulinho da Força, declarou em entrevista concedida à BBC Brasil que a “esquerda trocou causas nacionais por defesa do ‘politicamente correto’”, razão pela qual se sentia afastado do que chamou de esquerda moderna. O que o ex-ministro disse, mesmo não de forma expressa, é que o suposto abandono da tradicional luta de classes pela esquerda em favor de lutas de caráter identitário – o que denomina como politicamente correto – seria uma mudança de agenda deste lado do espectro político, tradicionalmente ligada à luta por melhorias econômicas dos trabalhadores.

O sociólogo Jessé Souza possui passagens em suas obras mais recentes em que questiona uma suposta preocupação excessiva da esquerda brasileira com questões secundárias para um país que ostenta a abissal discrepância nos indicadores econômicos como o Brasil. Ao mesmo tempo que é exitoso em apresentar conceitos alternativos para a definição de classe social, ao fugir da cegueira economicista que afeta tanto a esquerda como a direita, Jessé centra o foco de sua trajetória acadêmica e política no embate entre classes, tratando tal batalha de forma una, ainda que sob diferente roupagem.

Com efeito, não é raro dos ciclos de esquerda, seja em âmbito acadêmico ou político, o questionamento e o distanciamento, como se excludentes fossem, das lutas tradicionais de classe e das atuais lutas identitárias. Enfim, a questão que pretendo tratar neste artigo, mesmo que de forma bastante breve, é se esta suposta ambivalência possui sustentação em um novo contexto socioeconômico, em que as distinções entre o fazer econômico e o fazer político não se mostram mais tão claras – se é que um dia o foram.

Os filósofos marxistas Michael Hardt e Antônio Negri sustentam que o capitalismo lida tranquilamente com crises de caráter objetivo, se reinventando com certa facilidade, todavia não fora ainda devidamente testado ante uma crise de caráter subjetivo, em que se possa verificar a construção de novos sujeitos. Sustentam que reivindicações tradicionais de classe, como a realizada por sindicatos organizados, tem o condão de tão somente remodelar, de forma bastante reduzida, condições específicas de trabalho, no entanto sem possibilidade de alterações substanciais para os objetivos que possuem.

Em um contexto de racionalidade neoliberal, em que o capitalismo é totalidade, e abrange basicamente todos os setores da vida, qualquer luta democrática deve ser completa, não podendo se limitar a esse ou aquele setor. Depende-se, na verdade, da construção de um novo sujeito, o que não me parece possível se nos limitarmos às concepções tradicionais de cunho econômico ou da organização do trabalho – no mesmo sentido, da detenção ou não dos meios de produção.

Hardt e Negri sustentam, ainda, que qualquer revolução deve pretender, para se definir como tal, alcançar maior liberdade e democracia. Por sua vez, questionam que a democracia não pode restar limitada entre a prevalência da liberdade sobre a igualdade, como verifica-se no ideário liberal, tampouco no contrário, com a ideia de igualdade prevalecendo sobre a liberdade, como posto nas experiências socialistas.

Assim, a necessidade é de se buscar uma valorização do sujeito enquanto tal, mas também enquanto membro de uma comunidade, o que se faz através do que conceituam como “multidão”, que operaria num sistema do comum, distinto da lógica binária entre privado e público. Dessa forma, parece-me que a produção deste sujeito é tarefa impossível se nos limitarmos à questão economicista da luta de classes, ou mesmo se a tratarmos como distinta das lutas identitárias.

Se o capital é o instrumento impessoal de dominação por essência, como reverter as formas pessoais de exercício de poder senão pelas lutas identitárias? Como afastar-se da realidade de que a cor ou o gênero ainda são elementos definidores de hierarquias? Se vamos separar a luta identitária da questão econômica, vamos também desconsiderar que a cor da pele já foi tão importante para o capitalismo quanto o maquinário e o crédito, ou que é a questão subjetiva que torna desfavoráveis as condições econômicas da mulher no mercado de trabalho?

Em português mais claro, sequestrou-se e escravizou-se pessoas unicamente pela sua cor da pele; do mesmo modo, negam-se promoções no trabalho – ou mesmo contratações, para ficarmos apenas nestes dois exemplos – em razão do gênero. É um gargalo que supera o embate tradicional da luta de classes sob a ótica economicista.

Aliás, se período pós-moderno de fato existe, uma de suas características é o apagamento das fronteiras entre o econômico, social e político.

Ao que me parece, não é a “espécie” de luta que impede verdadeiras revoluções democráticas, mas sim a sua característica, se de fato revolucionária ou se apenas reformista – e aí o debate é outro. Hardt e Negri apontam ser necessário esforço político para associação destes dois campos de batalha – econômico e identitário – porém entendo serem estas lutas indissociáveis, dado que, considerada a amplitude do sistema capitalista em nossas vidas, não há mais qualquer barreira entre nosso agir econômico e o agir político.

Em um contexto de absoluto remodelamento das conformações econômicas, não me parece possível existir qualquer proposta de revolução democrática no âmbito da esquerda que não passe por: valorização absoluta do indivíduo em suas necessidades de liberdade e igualdade, pois só assim se criará o novo sujeito; fuga de ideais que procurem transferir a uma burocracia, estatal ou não, o poder de decisão sobre os rumos coletivos de uma sociedade, com a necessária valorização dos instrumentos de autogestão comunitária.

Com efeito, diante do cenário político que hoje se avizinha no país (que infelizmente se concretizou), em que o candidato favorito declara expressamente que as minorias devam se adequar às maiorias ou serão extintas, a luta referente às subjetividades torna-se mais do que resistência ou questão secundária, para muitos passou a ser, na verdade, questão de sobrevivência, e sua redução é, neste contexto, estar do outro lado. Ok, Aldo?

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